in

De testemunha de Jeová a voz do funk LGBT, MC Linn da Quebrada se diz terrorista de gênero

MC Linn da Quebrada cresceu no interior paulista em uma família simples e religiosa. A mãe, alagoana, era empregada doméstica, e ela cresceu entre Votuporanga e São José do Rio Preto, até retornar à zona de leste de São Paulo e se tornar uma das novas vozes de um movimento crescente na música brasileira: a dos artistas que colocam em pauta a questão do gênero. Transexual de 25 anos, MC Linn não fala só sobre os direitos LGBT (Transexuais, Lésbicas, Gays e Bissexuais), mas trata também do direito de ser afeminada, ou de “enviadecer”, como ela coloca em uma das suas músicas com conteúdo bem explícito e cujos videoclipes já têm mais de cem mil visualizações no YouTube. “Passei uma vida inteira ouvindo que ser viado não é uma coisa legal, que ser travesti é perigoso e vai trazer problemas. E eu não estou dizendo que é fácil, mas que é possível e lindo ser transviada – é uma possibilidade feliz. Eu venho de uma criação religiosa muito rígida, eu era testemunha de Jeová, então tive o corpo muito disciplinado, domesticado pela Igreja e pela doutrinação, que me privava dos meus desejos. Era como se ele não me pertencesse. Até eu tomar o bastião de liberdade há alguns anos e me assumir”, conta. Ela chegou a fazer alguns raps, mas foi no funk que encontrou a melhor forma de se expressar. “Eu vivi na periferia com minha mãe, e lá a música comunica- música como o funk, o samba, de preto e preta, de linguagem direta, que movimentam o corpo. Também ali tive contato com as músicas LGBT, músicas de bicha, que estão nas baladas. E percebi que esse tipo de música me movimentava mas estava somente relacionada ao universo machista. E por acreditar que a música também é um espaço a ser ocupado e contaminado, por que não eu fazer algo que eu quisesse ouvir? Foi aí que eu decidi começar meu trabalho com as minhas histórias”. O boom do gênero na música Assim como Linn, outros artistas como Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Jaloo e Johnny Hooker também vêm abordando a questão de gênero – nem sempre por discursos explícitos nas letras, mas pela exposição de mídia e por se colocarem como são – trans, não binários, travestis – ao público. Linn atribui esse boom de artistas que tratam de alguma forma da questão de gênero às redes criadas pela internet e reconhece que “há interesse em que isso se torne um produto de alguma forma”. “Estamos num momento de tomada dos meios de produção, a internet facilitou as coisas. A diferença é que hoje nós conseguimos ser vistas: consigo ver que tem trans lá no Nordeste fazendo coisas maravilhosas de que eu não iria saber antes. Eu mesma, bicha da favela, consigo ser vista e conhecida pelo meu trabalho. Além disso, acho que há um interesse mercadológico nisso tudo.” Terrorista de gênero Ativista, MC Linn colaborou com a formação da ONG ATRAVESSA (Associação de Travestis de Santo André) e se considera “bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Performer e terrorista de gênero”. Questionada pela reportagem sobre a necessidade de ser uma “terrorista” nesse sentido, ela responde com outra pergunta: “Será que não fomos por tempo demais inofensivas? Não está na hora de a gente passar a dar medo, a assustar? E também a se assustar, se pôr em risco? Por isso me coloco nessa posição: eu quero duvidar da imagem consolidada há tanto tempo no espelho. Eu quebro esse espelho para que possa me reinventar. É preciso ter muita coragem para sair como eu saio na rua, porque as pessoas não matam só com faca ou com balas. O discurso também mata. Os olhares pelas ruas também nos matam e nos oprimem, e é preciso que todos os dias eu mesma me encoraje para poder ser”. E trabalho dela, além de autoral tem também um viés político de “empoderamento”. “Tudo que a gente faz é politica. A roupa que eu escolho para sair na rua é política, a escolha de sair maquiada ou não também. Cada palavra que eu digo numa musica ou numa conversa informal é política, tem efeitos e diz respeito a uma atitude, a um posicionamento”. MC Linn aposta no efeito que a obra dela pode ter – para si mesma, para outras trans e para o mercado da música no Brasil. “Apesar da facilidade maior de produzir, não é fácil entrar em alguns espaços. Para algumas pessoas como eu, às vezes não é fácil nem sair de casa, é um ato de coragem tomar o próprio corpo. Então eu espero que minha música consiga ser ouvida e com isso, outras pessoas possam ter a coragem de ser, de existir, e a gente possa estabelecer esses vínculos para sobreviver. Eu não sou a rainha do empoderamento, uma diva, nada disso. Eu sou só uma bichinha da favela, mais uma, como qualquer outra – e qualquer outra também pode produzir.”

Gay assumido, filho de Kadu Moliterno posta foto nu e exibe boa forma física

Acusado de planejar ataque terrorista à Parada LGBT da Inglaterra se assume bi perante o júri