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“Orgia”, polêmica obra de Tulio Carella, choca pela atualidade de seu texto

A editora Opera Prima lançou em maio deste ano a polêmica obra do argentino Tulio Carella, "Orgia". O livro retrata as aventuras do dramaturgo e escritor portenho pelas noites de Pernambuco nos anos 60. "Orgia" estava fora de catálogo e era uma raridade até mesmo em sebos, cada exemplar chegava a custar mais de mil reais. Relançado, o livro agora pode ser encontrado em qualquer livraria.

"Orgia" foi escrito durante os anos 60 do século XX, ou seja, lá se vai mais de meio século e é exatamente isso que choca quando lemos os diários de Tulio Carella. Ao chegar ao Brasil, como professor convidado da Universidade Federal de Pernambuco (UFP), Carella se depara e se choca com a cultura e o modo de vida do povo pernambucano. Se no início é o estranhamento que o recepciona, posteriormente é a atração pelos corpos que vai consumir o seu cotidiano. O escritor passa a obra inteira a se perguntar: o que é um negro? E o próprio autor responde:

"O pluralismo étnico foi um fator desencadeante dessa paixão que eu trazia dentro de mim e supunha dominada, eliminada. Mas por que não voltar-me para as mulheres que também têm a cor da terra? Aqui, como entre os pássaros, o macho é o mais atraente", filosofa o autor sobre sua atração carnal pelos homens pernambucanos.

Solidão e conflitos existenciais
Podemos entender os diários de Tulio Carella como uma forma de fugir da solidão que o atormentava no seu cotidiano em terra brasileira, como também a clara intenção do autor em transformar as suas andanças e práticas sexuais em banheiros e locais públicos em uma obra literária.

A partir do momento em que adentramos na mente de Carella também nos deparamos com conflitos existenciais tão presentes em nossa sociedade atual: a busca por uma companhia fixa, o amor e a satisfação sexual. Ginarte, o alter ego utilizado por Carella, passa boa parte de seus pensamentos e experiências se equivocando em relação aos seus casos amorosos. Deseja, transa, goza e ao observar o corpo e a pessoa ao seu lado imagina que poderia ter um cotidiano com aquele sujeito, mas notamos que tal desejo nunca se concretiza.

Solidão e vivência são duas características que se pode usar para denotar o clima literário e existencial da obra. Angustiado e quase sempre ansioso, Ginarte passa sua permanência no Brasil isolado pelo fator da língua e da diferença social. Em muitos momentos, o personagem acredita que os sujeitos que passam pela sua vida e cama só querem dinheiro e objetos materiais. O anúncio de uma época vindoura?

Na ausência de amores constantes, Ginarte/Carella doa o seu amor à transas em praças públicas e banheiros. Em dado momento, o personagem se questiona se ainda há algum tipo de corpo que ainda não experimentou. "Orgia" também é rico na maneira como o autor descreve membros masculinos, o ápice do orgasmo e também por fazer uma rica descrição da época social em que o Brasil e especialmente Pernambuco vivia: uma grande ascensão do ideário comunista junto dos movimentos sociais.

Assim como a ditadura brasileira enterrou e calou varias manifestações artísticas, o mesmo ocorreu com Tulio Carella. O dramaturgo foi perseguido pelos censores e acusado de comunista. Ao revistarem o seu apartamento encontraram seus diários e tal documento foi motivo para expulsá-lo do Brasil. Ao retornar para a Argentina, Carella acreditava que sua obra seria bem recebida. Porém, foi tratada como "pornografia comum", justamente em uma época em que a Argentina também vivia sob forte moralismo ditatorial.

O autor, que antes era um dramaturgo e crítico literário renomado, acabou em desgraça. Tulio Carella faleceu em 1979 praticamente esquecido pela crítica. Eis um ótimo momento para se resgatar e se aventurar em uma obra rica na sua estética e no mergulho da alma humana.


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